quarta-feira, 7 de setembro de 2022

OS INHAMUNS E A CONFEDERAÇÃO DO EQUADOR


Por Paulo César Silva[1]

Ainda sobre os desdobramentos pós-independência, em 1824, o Ceará era comandado por Pereira Filgueiras, contudo, houve uma ruptura de Filgueiras com o Império, por conta de Pedro I ter escolhido para o cargo de presidente da província o militar Pedro José da Costa Barros. Preterido, Filgueiras, desafiando as ordens do imperador, decidiu se aliar a revoltosos pernambucanos favoráveis à criação de uma república. O movimento, ficou conhecido como Confederação do Equador, por alguns meses exerceu controle sobre o Nordeste do Brasil em insubordinação a Pedro I. 

Nos Inhamuns, coube ao Coronel João de Araújo Chaves, a contragosto, representar os Inhamuns no novo governo, entretanto, quando a criação vacilante dos republicanos começou a ruir, O Coronel Chaves voltou-se contra o governo ao qual havia jurado lealdade e, acompanhado pelo Major José do Vale Pedrosa, (este que marchou com suas tropas para o Icó em defesa de Pedro I), hastearam a bandeira do império nos Inhamuns..

O Coronel João de Araújo Chaves não somente escapou ao destino que tiveram as lideranças republicanas do Ceará, dos quais, a maioria foram assassinados ou executados, bem como assumiu um papel de maior relevância no governo monarquista, sendo nomeado comandante militar da vila do Icó, e, antes do final da referida década, foi indicado comandante das forças militares do Ceará.

 

Referencias: 

CESÁRIO, Luciano. Há 200 anos, independência do Brasil acirrou disputa política no Ceará: Governo provincial do Ceará reconheceu oficialmente a emancipação mais de dois meses após a proclamação da independência por Dom Pedro I. Fortaleza, 5 set. 2022. Disponível em: https://mais.opovo.com.br/reportagens-especiais/200-anos-de-independencia/2022/09/10286659-ha-200-anos-independencia-do-brasil-acirrou-disputa-politica-no-ceara.html#.YxJkNRh56-o.whatsapp. Acesso em: 5 set. 2022.

CHANDLER, Billy Jaynes. Os Feitosas e o Sertão dos Inhamuns; a história de uma família e uma comunidade no Nordeste do Brasil - 1700-1930, Tradução de Alexander F. Caskey e Ignácio R. P. Montenegro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.

FREITAS, Antônio Gomes de. Inhamuns (Terra e Homens). Fortaleza. Editora Henriqueta Galeno. 1972.



[1] É graduado em História pela Universidade Santo Amaro (UNISA), Historiador e membro titular da Academia Tauaense de Letras (ATL).

terça-feira, 6 de setembro de 2022

INFANTARIA DOS INHAMUNS NA BATALHA DO JENIPAPO

                                 

 Por Paulo César Silva[1] 

Neste 07 de Setembro de 2022, o Brasil comemora 200 anos de sua independência desde o “Grito do Ipiranga”, marco simbólico da emancipação do Brasil em relação a Portugal. A resistência, liderada por meio do então príncipe regente dom Pedro I não era homogênea entre as províncias brasileiras, Pará, Piauí, Bahia e Maranhão, por exemplo, mantiveram-se fiéis a Corte Portuguesa.

No Ceará, a Independência só foi reconhecida pelo governo local dois meses após sua proclamação, dada a dificuldade de comunicação entre as províncias. Naquele período, o Ceará era comandado por uma “junta provisória” com status de governo provincial.

A ruptura com a metrópole, desencadeou algumas revoltas pelas províncias brasileiras com movimentos contra a independência, principalmente no norte do país. Entre elas, a famigerada Batalha do Jenipapo ou Guerra de Fidié onde, cearenses e maranhenses, se juntaram ao povo do Piauí para lutar contra resistentes tropas portuguesas lideradas pelo Major João José da Cunha Fidié.

Entre a resistência brasileira estavam, o Coronel João de Araújo Chaves e o Capitão/Major José do Vale Pedrosa (filho único do capitão-mor) chefes das tropas dos Inhamuns, oferecidas pelo capitão-mor José Alves Feitosa para serem enviadas ao Piauí em auxílio a Pedro I, sendo aceito, foram com 300 praças de cavalaria, marchando em direção a Campo Maior, chegando em Valença no dia 1º de março de 1823 e dali partiram para a ribeira do Jenipapo aos 13 do mesmo mês para tomar parte naquela sanguinolenta batalha.

Os conflitos se iniciaram após terem sido descobertas as intenções do comandante das tropas portuguesas: manter a região sob o domínio português para abafar os movimentos de independência que se desenvolviam na área. Os brasileiros então decidiram impedir que a sedição dos portugueses fosse realizada e travaram uma luta entre o Império do Brasil e o Reino Unido de Portugal e Algarves. Nesse interim, estavam de um lado, brasileiro simples, lavradores, artesãos, escravos, roceiros, vaqueiros, etc. Enquanto do lado português haviam soldados bem treinados, bem armados e a cavalo, diz Abdias Neves: "E só a loucura patriótica explica a cegueira desses homens que iam partir ao encontro de Fidié quase desarmados.".

Óleo sobre tela, arte pictórica de
 "Artes Paz" retratando o conflito

A batalha do Jenipapo é conhecida como uma das mais cruéis batalhas realizadas no solo brasileiro, muito pelo fato da fragilidade em que se encontravam as forças brasileiras nessa peleja, cerca de 200 foram mortos e outros 542 foram feitos prisioneiros por Portugal, enquanto 116 portugueses morreram e 60 ficaram feridos, entre os quais estavam homens comandados pelo Coronel João de Araújo Chaves. Durante os combates que se intensificaram, houve um encontro entre os homens comandados pelo Capitão/Major José do Vale Pedrosa e uma coluna piauiense, ambas nacionalistas, porém, não se identificando, abriram fogo, uma contra outra, trazendo maiores baixas. 

Tombaram homens de ambos os lados, contudo, Fidié conquistou vitória aparente apesar de perder parte de sua bagagem de guerra, foi se acampar a um quilômetro de Campo Maior, na fazenda Tombador.

No entanto, os filhos dos Inhamuns se mantiveram comprometido com as refregas, desde o inicio até a rendição das tropas de Fidié em 31 de julho de 1823 no improvisado Forte da Taboca, em Caxias, no Maranhão onde piauienses e cearenses o cercaram e fizeram que ele se rendesse, entregando suas onze peças de canhões, sendo coagido a cessar fogo.

Por fim, enaltece o ato de bravura da Infantaria inhamunhense o Brigadeiro Manuel de Sousa Martins, Presidente da Província de São José do Piauí por meio do Capitão/Major José do Vale Pedrosa: << ...veio da Província do Ceará aonde hé morador para esta – comandando Cento e sincoenta prassas em auxílio à Cauza da Independência e Império do Brasil e com melhor conducta Civil e Militar, e firme adesão à mesma Cauza, dezempenhou todas as ordens que lhe foram dirigidas athé que os inimigos encantonados no morro da TABOCA se renderão as tropas Imperiais >> (Dos INÉDITOS do Barão de Studart).

 

Referencias: 

CHANDLER, Billy Jaynes. Os Feitosas e o Sertão dos Inhamuns; a história de uma família e uma comunidade no Nordeste do Brasil - 1700-1930, Tradução de Alexander F. Caskey e Ignácio R. P. Montenegro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.

CESÁRIO, Luciano. Há 200 anos, independência do Brasil acirrou disputa política no Ceará: Governo provincial do Ceará reconheceu oficialmente a emancipação mais de dois meses após a proclamação da independência por Dom Pedro I. Fortaleza, 5 set. 2022. Disponível em: https://mais.opovo.com.br/reportagens-especiais/200-anos-de-independencia/2022/09/10286659-ha-200-anos-independencia-do-brasil-acirrou-disputa-politica-no-ceara.html#.YxJkNRh56-o.whatsapp. Acesso em: 5 set. 2022. 

FREITAS, Antônio Gomes de. Inhamuns (Terra e Homens). Fortaleza. Editora Henriqueta Galeno. 1972.

INTERNET, Eureka. A história da guerra: Conheça detalhes da história desta guerra sangrenta. [S. l.], 5 set. 2022. Disponível em: http://batalhadojenipapo.pi.gov.br/a-historia-da-guerra/. Acesso em: 5 set. 2022.



[1] É graduado em História pela Universidade Santo Amaro (UNISA), Historiador e membro titular da Academia Tauaense de Letras (ATL);

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

19 DE AGOSTO É O DIA DO HISTORIADOR


"A função do historiador é lembrar a

sociedade daquilo que ela que esquecer."

(Peter Burke)

Por Paulo César Silva 


O Dia Nacional do Historiador é comemorado anualmente em 19 de agosto. Essa data tem o objetivo de homenagear os profissionais que se dedicam a estudar e conhecer sobre a história das civilizações e comunidades.

A criação do Dia do Historiador foi oficializada a partir do Decreto de Lei nº 12.130, de 17 de dezembro
de 2009. A escolha do dia 19 de agosto é uma homenagem a Joaquim Nabuco (1849- 1910), nascido nesse dia, em Pernambuco. Um dos grandes historiadores do país e um dos responsáveis pela fundação da Academia Brasileira de Letras.

Vale destacar que, recentemente, os historiadores tiveram sua atividade regulamentada no ano de 2020, através da Lei 14.038/2020.

Segundo Marc Bloch (1886-1944) estudar a História não era estudar o passado, mas estudar ação humana ao longo do tempo e do espaço. Estudar a humanidade vivendo em sociedade, desenvolvendo linguagens, conhecimentos, tecnologias, Estados, culturas etc. Bloch também chama a atenção ao esclarecer que os historiadores devem “saber falar, no mesmo tom, aos doutos e aos estudantes”. Lucien Febvre (1878 – 1956) diz que a história é "uma resposta a perguntas que o homem de hoje necessariamente se põe.” Esses homens, foram grandes precursores da historiografia problematizada ou história-problema. Abandonando métodos positivistas de se fazer história (história dos heróis) voltaram-se para o todo, para a compreensão do processo histórico ao longo do tempo e a intervenção humana nesse meio, fundando a famigerada Revista dos Annales (1929-1989).

É conhecido de todos que o ofício do historiador passa, ao longo do tempo, por ataques constantes, seja pela negação, pelo desprestígio ou pela coação, pois, trazer a lume, os fatos ocorridos ao longo do tempo, nem sempre é visto com “bons olhos”, Eric Hobsbawm (1917-2012) dizia que: “[Os historiadores] são os memorialistas profissionais do que seus colegas-cidadãos desejam esquecer”. Falar de processos históricos são, por vezes, “indigestos”. Sendo assim, é dever do historiador se manter fiel ao fazimento histórico. Separar o “joio do trigo” é um dever!

Ademais, o revisionismo histórico, através de suas “novas narrativas historiográficas” camufladas de “verdade”, bem como as problemáticas Fake News, espalham desinformação e distorção dos fatos através das redes sociais. Não obstante, lançamos novos olhares sobre a historiografia, porém isso não ocorre por mera “opinião” do escritor, é notório que as novas tecnologias, por exemplo, permitem novos meios para pesquisas, ampliando o campo de análise documental, com isso, atores e fatos históricos saem do anonimato para o protagonismo por meio desse fazer.

Enfim, olhamos para o passado, com os olhos do presente, pois é nele que vivemos e nos relacionamos, como disse Lucien Febvre (1878 – 1956) “Assim eles [historiadores] atuarão sobre sua época.” o historiador é um sujeito que pertence ao seu tempo. Entretanto, evitamos transportar valores de um tempo para o outro, voltamos para o passado, buscando compreender o presente, para então, melhor interpretá-lo.

Parabéns historiadores(as), sigamos!

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PAULO CÉSAR SILVA é natural de Cruzeiro/SP, mudou-se para Campo Grande/MS aos três anos de idade, onde morou até o ano de 2016, quando mudou-se nesse mesmo ano para Tauá/CE, local em que reside atualmente. É graduado em História pela Universidade Santo Amaro (UNISA); membro titular da Academia Tauaense de Letras (ATL); membro fundador da Associação de Pessoas Com Deficiência de Tauá (APCD/Tauá); historiador; escritor; cristão; arte-finalista; assessor de produção literária; capista, e diagramador.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

PARABÉNS, TAUÁ! 220 ANOS DE EMANCIPAÇÃO. (1802-2022)


Tauha ou Tauá, é a capital natural do sertão dos Inhamuns, com seu topônimo indefinido, pode ser na língua dos aborígenes, “barro amarelo”, para José de Alencar “barro vermelho”, Raimundo Girão já diz que “realmente é Barro, mas sem definição de cor”, para Valverde é “solo tipicamente laterizado”, no Grande Dicionário da Língua Portuguesa “Palmeira do Brasil, de cujos frutos se fazem vários objetos”, para Antônio Gomes de Freitas “Aldeia Antiga”[...]

Os colonizadores alcançando o centro sudoeste da Capitania do Ceará por volta de 1707, encontrou terras, e vastas terras habitadas por hordas selvagens sob o domínio da valente nação Jucás, abrigada as margens do riacho que leva o mesmo nome que desagua no Jaguaribe perto da Serra dos Boqueirões. Os ameríndios eram tenazes inimigos da colonização, enquanto não foram completamente vencidos pelas armas dos brancos, estes não puderam estender suas posses. Assim as paragens foram ocupadas a partir da segunda década do século XVIII, sendo Luiz Coelho Vidal e João de Almeida Vieira, os primeiros colonizadores a estabelecerem seus currais de gado nas ditas terras, sendo esta concedida por carta de sesmaria em de 06 de julho de 1717, onde fundou a Fazenda Tauha.

Alguns anos depois, Tauá era composto de duas grandes propriedades, uma ao lado direito das margens do Rio Trici, pertencente a José Alves Feitosa e outra do lado esquerdo, terras do Sargento-mor José Rodrigues de Matos, este que em 1762 erigiu com recursos próprios a igreja de Nossa Senhora do Rosário, hoje, templo matriz. Ao redor da igreja foram-se construindo residências, prédios para oficina de ourives, tenda de ferreiro, vendas e tabernas. Tornando a antiga fazenda a Povoação do Tauá.

Quando foi dada a ordem de separação dos Inhamuns do Icó, Tauá foi escolhida em detrimento a Arneiroz onde estava estabelecida a matriz da paróquia. Tauá levou ligeira vantagem por conter uma capela um juiz residente e claro, era as terras do Capitão-mor. Para além disso, foi considerado pelo Governador Bernardo Manoel de Vasconcelos a distância que os habitantes dos Inhamuns percorriam até o Icó e carecendo de uma melhor administração da justiça, já que a mesma era refúgio de criminosos. A elevação do povoado a condição de Vila, tinha entre outros fatores, conter essa onda de criminalidade crescente na região. Com isso, os moradores se comprometeram a construir uma casa para a Câmara, uma cadeia, e o pelourinho, que era o símbolo de uma Vila. Para tanto o Ouvidor José da Silva Coutinho cumpriu a determinação, pois publicou um decreto a 20 de abril de 1802, dando instruções ao povo dos Inhamuns para comparecer a Tauá no próximo dia 03 de maio, a fim de participar da festa de instalação da Vila sob a multa de 6$000 (seis mil réis) para quem não prestigiasse, diga-se de passagem, uma vaca era comercializada a 3$000 (três mil réis) e aos faltosos, o Ouvidor não abria mão de duas, pela paga da multa!

Era 03 de maio de 1802, com a presença da maioria dos habitantes os sinos da igreja badalavam enquanto o decreto era anunciado e o pelourinho erguido, todos davam três vivas em honra ao Príncipe Regente D. João. O Ouvidor procedeu de boa oratória para aquele momento dizendo que Deus havia ordenado, segundo ele, que os homens deviam ser reunidos em grupos, pois somente desta maneira, poderiam ser felizes e prósperos. A história já demostrou, (continuava em seu discurso) que os que vivem separados dos outros homens em condições anárquicas vivem como animais; mas uma vez transplantados para sociedades organizadas, perdem sua ferocidade e adquirem virtudes.

Então declarou o Ouvidor: "Eu estabeleço e vos entrego a Governança Municipal deste território com todos os privilégios, honras e invenções da Vila do Icó da qual é desanexada". A nova vila foi batizada de São João do Príncipe, nome escolhido pelo Governador em homenagem ao Príncipe Regente D. João.

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REFERENCIAS:

CHANDLER, Billy Jaynes. Os Feitosas e o Sertão dos Inhamuns; a história de uma família e uma comunidade no Nordeste do Brasil - 1700-1930, Tradução de Alexander F. Caskey e IgnácIo R. P. Montenegro. Fortaleza, Edições UFC; Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.

FEITOSA, Aécio. INHAMUNS: - minha terra, minha gente -. Fortaleza: GrafHouse Gráfica Digital, 2011. 19 p. v. 1.

GOMES DE FREITAS, Antônio. INHAMUNS: Terra e Homens. Fortaleza: Editora Henriqueta Galeno, 1972.

LIMA, João Álcimo Viana. Documentos históricos do município de Tauá. Fortaleza: Caminhar, 2021.

SILVA, Paulo César. Potentados das Ribeiras do Jaguaribe : Feitosa e Montes, duas famílias pastoris deflagram um dos maiores conflitos por terras no interior do Ceará setecentista. Tauá/Ce. Ed. do Autor. 2022.

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IMAGEM:

Elevação da Vila de São João do Príncipe. Tela de Afonso Lopes. 1963.



A ABOLIÇÃO INACABADA: LIBERATA E O PÓS-1883 NO SERTÃO DOS INHAMUNS

  Ilustração: ALBUQUERQUE, Lucílio de. Mãe Preta . 1912. Pintura. Paulo César Silva [1] O Ceará ocupa um lugar de destaque na historiograf...