terça-feira, 22 de agosto de 2023

O FATÍDICO 12 DE JUNHO DE 1883

 


Por Paulo César Silva[1]


A história dos Inhamuns guarda episódios que deveriam ocupar lugar mais destacado na memória regional. Entre eles está o trágico acontecimento de 12 de junho de 1883, quando o juiz de direito da comarca de São João do Príncipe, Dr. José Balthazar Ferreira Facó, tirou a própria vida. Mais do que um drama pessoal, esse episódio revela uma figura que merece ser lembrada sobretudo por sua atuação firme em favor da liberdade de pessoas escravizadas. Minha convicção é que o legado histórico de Balthazar Facó não pode ser reduzido ao gesto trágico de sua morte, mas deve ser reconhecido principalmente por seu papel na luta abolicionista no sertão dos Inhamuns.

Natural de Beberibe, o magistrado construiu uma carreira respeitável na justiça provincial. Antes de chegar aos Inhamuns, atuou como promotor público em São Bernardo e como juiz municipal e de órfãos nos termos de Cascavel e Aquiraz. Nomeado juiz de direito em 16 de julho de 1881, assumiu suas funções na Vila de São João do Príncipe em 7 de setembro do mesmo ano, onde passou a exercer o cargo com reconhecida firmeza e integridade. Documentos da época indicam que sua atuação era marcada pelo respeito à lei e pela confiança da população local, um dado relevante para compreender a dimensão de sua influência.

Essa influência se tornaria decisiva em 25 de abril de 1883, quando o magistrado esteve à frente da libertação coletiva de 40 pessoas escravizadas na Câmara Municipal da Vila. O ato contou com a presença do juiz municipal Dr. Francisco Primeiro de Araújo Citó, do pároco padre Alexandre Ferreira Barreto e do presidente da Câmara, major Joaquim Alves Feitosa. Na ocasião, foram entregues cartas de alforria, sendo 37 delas concedidas sem qualquer indenização aos antigos senhores. O episódio não foi isolado: ele se insere no contexto do forte movimento abolicionista que se desenvolvia no Ceará na década de 1880, tornando a província pioneira no processo de libertação de pessoas escravizadas no Brasil.

Ao realizar esse ato, a Vila de São João do Príncipe passou a figurar entre as nove primeiras localidades do Ceará a promover emancipações coletivas, um fato que evidencia a participação dos sertões dos Inhamuns em um processo histórico frequentemente associado apenas aos grandes centros urbanos. Ignorar esse protagonismo regional é, em certa medida, empobrecer a própria narrativa da história cearense.

A morte do juiz, ocorrida poucas semanas depois, causou grande comoção. Um relatório do delegado Francisco Pereira de Freitas, encaminhado em 17 de junho de 1883 ao vice-presidente da Província, coronel Antônio Theodorico da Costa, descreve Balthazar como um homem de reputação ilibada, sem inimigos conhecidos e muito estimado pela população da comarca. A repercussão também apareceu na imprensa. Em carta publicada no jornal O Cearense, o cônego Francisco Ribeiro Bessa registrou o sentimento coletivo diante da perda: “Todos lamentam sua perda! Um profundo sentimento se comunica de coração em coração, de teto em teto. [...] Na sociedade civil, era um distinto cidadão, um magistrado reto e incorruptível [...] na cruzada santa da remissão dos cativos, um infatigável lutador.”

Segundo o relatório policial, o suicídio ocorreu por volta das 8 horas da manhã, mediante um disparo na região direita da cabeça. O criado do juiz, um menor chamado Cyrillo, afirmou ter encontrado o magistrado com o revólver ainda na mão direita. Nenhuma carta ou indício material foi encontrado que explicasse as razões do ato. O inquérito concluiu pela hipótese de suicídio, mas não apresentou explicações definitivas para suas causas.

Diante dessa ausência de provas, surgem interpretações diversas. Alguns poderiam sugerir que o gesto teria relação com possíveis pressões políticas ou tensões sociais provocadas por sua postura abolicionista. Afinal, a escravidão ainda encontrava defensores entre setores influentes da sociedade. No entanto, não existem evidências documentais que confirmem essa hipótese, e qualquer tentativa de estabelecer tal relação deve ser feita com cautela historiográfica.

O que não pode ser ignorado, contudo, é que a trajetória de Balthazar Facó representa um momento significativo da luta pela liberdade nos sertões do Ceará. Em uma época em que a escravidão ainda era uma realidade institucional, sua atuação contribuiu diretamente para mudar o destino de dezenas de pessoas. Por isso, reduzir sua memória apenas ao episódio de sua morte seria uma injustiça histórica.

Mais do que um drama individual, o 12 de junho de 1883 deve ser lembrado como um capítulo que revela as complexidades humanas e políticas do período abolicionista. Se sua morte permanece cercada de silêncio e interrogações, sua ação em favor da liberdade permanece clara e documentada. É essa dimensão que merece ocupar lugar central na memória histórica dos Inhamuns.


Referencias:

SILVA, Paulo César. Tauá uma breve história: do século XVIII ao XXI, Tauá/CE, Ed. Do Autor. 2023. p. 99.

LIBERTADOR: orgao da Sociedade Cearense Libertadora. Fortaleza: [s.n.], 1881-1892. Diária. Nao circulou: 1881: abr, out-nov. Disponível em: http://hemerotecadigital.bn.br/acervo-digital/libertador/229865. Acesso em: 22 ago. 2023. Localização: Publicações Seriadas - PR-SPR 00531

O CEARENSE. Fortaleza, CE: Typ. Fidelissima, 1846- . Irregular. Impressores: M.F. Nogueira, Joao Evangelista, Francisco Perdigao e Joaquim Lopes Vercosa. Disponível em: http://memoria.bn.br/DOCREADER/docreader.aspx?BIB=709506. Acesso em: 22 ago. 2023. Localização: Publicações Seriadas Raras - PR-SOR 00642 [1-35]

 


[1] Graduado em História, historiador, RPME 0000132/CE, Tauá, Ceará, Brasil. E-mail: banner.paulocesar@gmail.com.

ATA DA REDENÇÃO DA VILA DE SÃO JOÃO DO PRÍNCIPE

Ato de Redenção dos escravizados na Vila de São João do Príncipe, 25.04.1883. Imagem gerada por IA.                          Aos vinte e cin...