Por Paulo César Silva
Todo dia 19 de outubro, Tauá
passa a ter um motivo a mais para abrir um livro. A Lei Municipal nº 2814,
sancionada em 24 de janeiro de 2024, instituiu o Dia Municipal do Escritor e
da Escritora. A data é o natalício de uma das maiores personalidades que a
cidade já deu ao Ceará: a escritora e educadora Francisca Clotilde.
A proposta foi apresentada pelo
vereador Érico Lima e aprovada pela Câmara Municipal de Tauá. Merecem
reconhecimento a Casa Legislativa, na pessoa de sua ex-presidente, vereadora Polyanna Lima,
e a Academia Tauaense de Letras-ATL autora do projeto, pelo reconhecimento a quem se dedica à escrita no
município.
O artigo 1º da lei deixa claro o
objetivo: a data é um “incentivo e homenagem aos escritores do município”. A
lei foi assinada eletronicamente e publicada no Diário Oficial do Município.
A lei vai além do simbolismo e
prevê ações concretas:
· Calendário oficial: a data
passa a integrar o Calendário Oficial de Eventos do Município e o Calendário
Escolar da rede pública municipal (art. 2º).
· Escritores nas escolas: na
semana do dia 19 de outubro, escolas e órgãos municipais poderão promover
atividades de incentivo à leitura e à produção literária local, com a presença
de escritores tauaenses que tenham ao menos uma obra publicada (art. 3º).
· Programação variada: varal de
poesias, lançamentos de livros, rodas de conversa sobre literatura, conversas
com escritores, concursos de poesia, contos, cordéis e repentes, apresentações
culturais e outros formatos (art. 4º).
· Apoio do Executivo:
divulgação dos eventos e cessão de espaço público (art. 5º).
· Intercâmbio: a Secretaria Municipal de
Cultura, Turismo e Lazer (SECULT) poderá convidar outros municípios para
apresentações e eventos literários (art. 6º).
· Recursos: as despesas correrão por
dotações próprias do orçamento municipal (art. 7º).
O ponto de maior alcance é o
artigo 3º. Ao levar autores locais para a sala de aula, a lei mostra aos
estudantes que a literatura também é feita por gente do seu convívio. Atualmente a ATL realiza o seminário "A Importância do Livro como Patrimônio Cultural" nas escolas de ensino médio, contribuindo para aproximar escritores e alunos.
A escolha da homenageada não é
casual. Francisca Clotilde Barbosa Lima nasceu em Tauá em 1862 e foi
professora, escritora, jornalista e ativista. Em 1882, tornou-se a primeira
mulher a lecionar na Escola Normal do Ceará, em uma sociedade que reservava
pouco espaço às mulheres na vida pública.
Foi também uma voz do movimento
abolicionista. Participou da Sociedade das Senhoras Libertadoras, que teve
papel importante na campanha que levou o Ceará a ser a primeira província
brasileira a abolir a escravidão, em 1884.
Na literatura, publicou em 1902 o
romance A Divorciada, que trata do preconceito enfrentado por uma
mulher após o divórcio, assunto delicado para a época. Em 1908, fundou o Externato
Santa Clotilde, escola laica e mista, ideia ousada para o início do século
XX. Colaborou ainda com periódicos como O Domingo, A Evolução, A
Família e O Lyrio, sempre em defesa da educação, da liberdade e dos
direitos das mulheres. Faleceu em 1935.
Hoje, seu nome batiza uma rua em
Fortaleza. Agora, também dá nome a uma data no calendário de sua terra natal.
A lei também chama atenção para a
produção literária de Tauá, que atravessa gerações. Registro aqui alguns dos
nomes de escritores tauaenses do passado e do presente.
Do passado: Antonio
Gomes de Freitas, Edson Massilon Mathias, Fausto Barreto, Joaquim Pimenta,
Leonardo Feitosa, Maria Dolores de Andrade Feitosa e Francisca Clotilde.
Do presente:
Francisco Paz Loureiro, Edmilson Barbosa Francelino Filho, José Wilton
Gonçalves Martins, Márcio Lacerdda, João Álcimo Viana Lima, Edna Maria Lessa de
Sousa, Marbênia Gonçalves Almeida Bastos, Maria da Trindade Luz, Maria do
Socorro do Nascimento (Sônia), Anamélia Custódio Mota, Ana Moreira Vale,
Geandra Cláudia Silva Santos, Guilhermina Venuíra Costa Sousa, Valdriano
Ferreira Nascimento, Diva Lima, Gilmar Pereira Costa, Antônio Robson Cavalcante
Ledo, Francisco Chagas Feitosa Lima (Prof. Feitosinha), Francisco Rogério Gomes
Barros, Francisco José Fernandes Mota (Franzé Mota), Adelaide Maria Gonçalves
Pereira, Isaías Batista de Lima, Maria Salete Vale Farias, Paulo de Tarso
Bezerra Gomes, Paulo César Silva, Marluce Torquato Lima Gonçalves, José
Rogaciano Siqueira de Oliveira, José Silvério do Nascimento Júnior, Aureamélia
Cavalcante Dias, Icaro Rodrigues da Silva, Manoel Enéas Alves Mota, Luiza
Gorete Cavalcante Ferreira, Francisco Ronaldo Gomes Costa, Evangelista Mota
Nascimento, Jefferson Massilon, Derlânio Alves, Nelson Noronha, Lucas Vieira, entre
outros.
O 19 de outubro é, desde então, a data oficial para valorizar quem escreve em Tauá e para aproximar autores e leitores. Que a lei sirva de inspiração e chegue às escolas, às praças e às bibliotecas. Que a cidade que deu ao Ceará uma professora, abolicionista e romancista continue produzindo quem registre, em palavras, a sua história.
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Fontes:
TAUÁ. Lei Municipal nº 2814, de 24 de janeiro de 2024. Institui o Dia Municipal
do Escritor e da Escritora e dá outras providências. Diário Oficial do
Município de Tauá, 24 jan. 2024. Disponível em: www.taua.ce.gov.br/diariooficial.php?id=1202.
NOBRE,
Leila. Francisca Clotilde: uma pioneira da educação e da literatura no Ceará. Fortaleza
Nobre, 5 jun. 2025. Disponível em: http://www.fortalezanobre.com.br/2025/06/francisca-clotilde-uma-pioneira-da.html.

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